Paulo Edson, grande nome do Rádio Brasileiro fala do mestre e inigualável Hélio Ribeiro.

Enviado em | Textos, Depoimentos (texto) de Rogerio | 20 de Junho de 2008 @ 10:35

Helio Ribeiro: amigo, professor e ídolo.

“Helio, o Ciro César ligou. Teve uma indisposição e disse que não dá pra trabalhar hoje. É pra mim apresentar ‘O Mundo pela Tupi’ das três”? – perguntei, aproximando-me da mesa no restaurante das Emissoras Associadas, no Sumaré, onde Helio almoçava. “O Mundo pela Tupi” era um noticiário apresentado nas horas cheias da programação. O diretor da Rádio Tupi chamou-me à mesa, pediu que tomasse assento na cadeira ao lado e cochichou baixinho no meu ouvido:
“Paulo, nunca se esqueça do que vou lhe falar: Mim não faz nada, em momento algum. Quando você tiver de se dirigir a alguém use o pronome sempre na primeira pessoa do singular. No caso, você deveria se expressar assim: É para eu apresentar ‘O Mundo pela Tupi’ das três? Não se esqueça disso”. Nunca mais esqueci.
Helio Ribeiro era assim. Além de um dos mais completos apresentadores do rádio tinha no tratamento com as pessoas um dos seus diferenciais. Nunca o presenciei humilhando quem quer que fosse, mesmo consciente de que era o mais famoso radialista das tardes paulistanas com o seu “O Poder da Mensagem”, programa de grande audiência que apresentava do meio-dia às duas. Se tivesse de chamar a atenção de alguém o fazia dentro de sua sala. E era enérgico quando necessário, sem desrespeito.
Helio era caprichoso na escolha de locutores para sua equipe. Demonstrou isso por todas as emissoras pelas quais passou. No seu time só trabalhava quem tivesse voz bonita. Pela Tupi, com ele, passaram apresentadores como Antonio Pimentel – uma voz que “enchia” o rádio -, Franco Neto, Antonio Carvalho – “viajou” fora do combinado (com diz Rolando Boldrin) -, Ciro César Silvério, Rubens Cotrim e Jorge Helal. Fazer parte de uma equipe como aquela era a maior honra para alguém como eu, nascido no Bairro dos Gomes, caipira de pés no chão. Numa determinada época o “Grande Jornal Falado Tupi” era apresentado dos estúdios da Sete de Abril, por Antonio Carvalho, Ciro César e Paulo Edson. Recordar aqueles tempos é rechear o coração de saudade.
Em abril de 1973 deixei a Tupi. Helio dirigia a Rádio Bandeirantes e já havia me convidado várias e várias vezes para trabalhar com ele no Morumbi. Saí da Tupi dia 4; no dia 14 já era locutor da Bandeirantes. Foi lá, com o incentivo e o apoio de Helio Ribeiro, que minha carreira deslanchou como integrante do “Scratch do Rádio”, chegando, alguns anos depois, à TV Bandeirantes.
Helio nunca quis trabalhar em televisão, apesar de ser bem afeiçoado e dono daquele vozeirão” que Deus lhe deu. Ele – como dizia Alberto Roberto, personagem criado por Chico Anísio – “era homem do rádio, só do rádio”. Chegou a fazer alguns trabalhos para a TV mas sem muito entusiasmo. Sua vida era o rádio. E foi o melhor de todos por onde passou, desde o começo na velha e sempre lembrada Rádio Panamericana (hoje Jovem Pan), onde Helio trabalhava como locutor comercial no período da manhã. Para não perder a hora dormia no sofá da redação.
Helio foi diretor das rádios mais famosas de São Paulo: Tupi, Bandeirantes, Globo, Piratininga e Capital. Um dia percebeu que tudo o que tinha de fazer no rádio já tinha feito. Foi tentar a vida em Washington onde montou uma agência. Fez narrações para a Paramount, Metro Goldwin Mayer, Twenty Century Fox, Universal e Columbia Pictures. Descobriu mais tarde que não era aquilo que queria. Voltou para São Paulo e foi trabalhar na Globo, mas a voz já não era a mesma. O cigarro tinha feito o estrago.
A notícia, dramática, me fez o mais carente dos órfãos naquele 6 de outubro de 2000. Falecera aos 65 anos, José Magnoli, bacharel em direito pela Universidade Mackenzie, jornalista, publicitário, pintor, escritor, professor de Comunicações da USP. O Brasil perdia Helio Ribeiro, o maior nome do rádio de todos os tempos. E eu perdia mais que o professor e amigo. Perdia meu ídolo.
Paulo Edson é jornalista e radialista
pauloedson@hotmail.com