Na Rádio Bandeirantes, Hélio Ribeiro e Raul Seixas, e eu de expectador.

Enviado em | Textos, Depoimentos (texto) de Rogerio | 14 de Setembro de 2007 @ 17:43

Por Ivan Quadros
Fonte: Rádio Agência 13/09

Na adolescência, quando estamos ávidos por referências que nos norteiem diante de tanta inquietação, ocorreu um momento propulsor para uma tomada de decisão, o de ter estado pessoalmente com Hélio Ribeiro (foto), na Rádio Bandeirantes, em meados de 1973, eu com 14 anos de idade.
Graças à boa vontade do meu pai, que já tinha me acompanhado até à rádio Tupi (e por extensão à TV), talvez procurando detectar pra onde pendiam as minhas vocações, ou me estimulando para eu defini-las ainda que precocemente.

Mas meu pai me acompanhou à Tupi também porque nossa família visitava amigos no bairro do Sumaré, bem perto da Tupi. Era subir três, quatro quadras e pronto.

Da primeira vez, ele foi comigo. Da segunda já não. Mas essa é outra história. Afinal, estou comprometido desde o artigo anterior, ” Cinema, Aspirina e Rádio”, a contar sobre a saga de ter conhecido Hélio Ribeiro, e de quebra, Raul Seixas.
Raul Seixas

Mais uma vez meu pai topou me levar, desta feita com um plano de viagem que consistia em ir para São Paulo de Pássaro Marrom, e da antiga rodoviária Preste Maia outro ônibus até os “chapadões do Morumbi”, e contar que a emissora permitisse a entrada de visitantes, como de fato, bastando somente que o programa já estivesse no ar. Dali mesmo da portaria, ao meio dia em ponto, comecei a ouvir “dos estúdios principais” ­ como Hélio falava - “O Poder da Mensagem”, a poucos metros daqueles estúdios principais e do fascinante comunicador do qual eu era ouvinte assíduo e fanático lá do interior do mato.

Logo depois fomos autorizados a entrar no complexo da Rádio e Televisão Bandeirantes e o meu coração batia sobressaltado.

Lá estava, com o cabelo encaracolado, o rosto crispado e alguns tiques nos olhos “modulando” nos microfones da Bandeirantes: “Aqui, Hélio Ribeiro, boa tarde”, como costumava dizer ao final de suas frases de efeito tais como “eu vou pelo mundo comendo pipoca e chutando esperanças na ponta da bota”, reverberadas pela sua voz inimitável (na qual o genial Chico Anízio inspirou-se, anos depois, para fazer na televisão uma irretocável caricatura de Hélio com o personagem “Roberval Teilor”).

Nós, visitantes, fomos muito bem tratados, logo na chegada, com direito a recepção por parte da secretária do departamento de Jornalismo e brindados com o carinho do próprio Hélio, que de viva voz ­ e que voz ­ anunciou para o Brasil e o mundo que ” Jorge e Ivan Quadros, de São José dos Campos” estavam lá, tão logo a secretária passou-lhe nossos nomes que anotara num pedaço de papel. Foi demais.

Mas outras emoções estavam prestes a vir, ao reconhecer do corredor, onde estávamos em pé, que quem apontava lá no fundo da emissora e na nossa direção, com um violão na mão, era Raul Seixas. Nem precisei coçar os olhos, era ele, em pessoa. Para meu desconcerto, imediatamente puxou papo na base da gozação me perguntando se eu estava achando que ele era Raul Seixas. “Não tenho a menor dúvida”, e o apresentei ao meu pai, também baiano. Sem sabermos por que estava lá, Raul Seixas já nos convidou para “tomar coca-cola e comer batatinha frita” caso o aguardássemos ali, aonde, minutos depois Hélio Ribeiro viria ao seu encontro, para um forte abraço. Aproveitou e cumprimentou a mim e ao meu pai, com um atencioso aperto de mão, e entrou com Raul Seixas no estúdio ao lado.

Na metade do programa, que ia até as duas horas da tarde, tinha uma “janela” de vinte minutos para o ” Repórter Bandeirantes Edição da Tarde”.

Naquela tarde específica e naquele horário, Hélio Ribeiro e Raul Seixas gravaram, durante o intervalo, uma das sessões que marcavam o programa, chamada “Com quantas influências se faz um artista”, um show à parte, ao qual meu pai e eu, impressionados, assistíamos de camarote.

E foi assim, com final feliz, minha saga de menino no Morumbi (aonde eu viria a ser repórter da rádio 10 anos depois ­ mas essa também é outra história), cuja visita ao Hélio Ribeiro indicou por onde eu me enveredar profissionalmente. E com um inesquecível autógrafo depois da coca e das batatinhas: “Sonho que se sonha só é só um sonho, mas sonho que se sonha junto é realidade. Abraços, Raul Seixas”.

Ivan Quadros
Jornalista. Repórter por natureza. Atuou na Rádio Bandeirantes de São Paulo; Sistema Globo/CBN de rádio no Rio de Janeiro, e foi correspondente da Rádio JB-AM (extinta) em São Paulo. Em televisão, foi repórter do Aqui Agora (SBT-SP) e do Jornal do SBT (Rio de Janeiro) e da CNT (Rio de Janeiro). Em São José dos Campos (SP), foi produtor e repórter da TV Globo local (hoje, TV Vanguarda). Entre outras atividades, desenvolve produtos para rádio na Publinter, de Luis Fernando Magliocca e é responsável pelo projeto jornalístico-radiofônico Jornal do Meio Ambiente na rádio Caraguá FM, com patrocínio da Petrobras).